1. O sistema de comunicação

Todos os sistemas desta edição cabem no esquema de oito blocos da Figura 9, cuja numeração vais reencontrar nos kits. No emissor, a fonte da mensagem ① produz o sinal a enviar, a mensagem vm(t): a tensão de um microfone ou os bits de um microcontrolador. O oscilador da portadora ② gera uma sinusóide de frequência fixa fp, muito maior do que as frequências da mensagem. O modulador ③ faz variar uma característica da portadora ao ritmo da mensagem. O sinal modulado entra no canal ④: o ar entre duas antenas, um cabo, uma fibra óptica ou o feixe de luz de uma sala. O canal enfraquece o sinal e o ruído ⑤ soma-se-lhe: outras emissões, motores, lâmpadas e a agitação térmica dos electrões nos componentes.

Figura 9 da Revista CIRCUITO+
Figura 9 — Sistema de comunicação em oito blocos, com uma portadora modulada em amplitude como exemplo. Junto à seta de saída de cada bloco, a forma de onda do sinal que dele sai (ilustração calculada). Cores dos traços: azul no emissor (①②③), castanho no canal (④⑤), verde no receptor (⑥⑦⑧).

No receptor, o filtro + amplificador ⑥ deixa passar só a faixa de frequências do sinal que interessa e devolve-lhe a amplitude perdida. O desmodulador ⑦ faz a operação inversa da do modulador e entrega a mensagem ao destino ⑧: um altifalante, um ecrã ou um microcontrolador. Compara os painéis ① e ⑦: a mensagem recuperada traz um resto de ruído que nenhum filtro tira, porque ocupa as frequências do sinal.

2. Porque se modula

O tamanho da antena. Uma antena só radia bem quando as suas dimensões são comparáveis ao comprimento de onda λ do sinal, em metros; o monopolo, a antena vertical mais simples, mede λ/4. O comprimento de onda é a velocidade de propagação c, que no ar vale cerca de 3,00 × 10⁸ m/s, a dividir pela frequência f, em hertz. Para 100 MHz, na faixa da rádio em frequência modulada (FM):

λ = c / f
λ = 3,00 × 10⁸ m/s / (100 × 10⁶ Hz)
λ = 3,00 m ; λ/4 = 0,750 m
(T.1)

Uma vareta de 75 cm cabe num receptor portátil; para um tom de 1 kHz, a Tabela 3 dá um monopolo de 75 km. Por isso a mensagem viaja numa portadora de frequência alta, e a antena é dimensionada para a portadora. Nos kits, o canal é uma ligação por resistências e não há antenas.

Partilhar o espectro. Se todas as estações emitissem a voz directamente, ocupariam todas a mesma faixa, de cerca de 300 Hz a 3400 Hz, e nenhum receptor as separaria. Com a modulação, cada estação usa uma portadora diferente, e o filtro ⑥ escolhe a que queres ouvir: é a multiplexagem por divisão de frequência (FDM).

Adaptar o sinal ao meio. Cada canal deixa passar bem só certas frequências e alguns impõem condições: um LED não emite «luz negativa». No modo VOZ do Li-Fi Comunicador, a corrente do LED varia em torno de 15 mA, entre 7,5 mA e 22,5 mA, e a luz nunca se apaga.

Tabela 3 — Comprimento de onda e monopolo λ/4, pela Equação (T.1)
Sinalf (MHz)λ (m)λ/4 (m)
Tom de áudio0,001300 00075 000
Portadora do KLV-A010,049560611515
Rádio em onda média (AM)130075,0
Rádio FM1003,000,750
Wi-Fi24000,1250,031

3. A portadora e os três parâmetros

A portadora é uma sinusóide, descrita por três parâmetros:

vp(t) = Vp cos(2πfpt + φ)
(T.2)

em que Vp é a amplitude, em volts, fp a frequência, em hertz, e φ a fase, em radianos. A modulação de amplitude (AM) faz variar Vp, a modulação de frequência (FM) faz variar fp e a modulação de fase (PM) faz variar φ. A Figura 10 mostra as três para a mesma mensagem.

Figura 10 da Revista CIRCUITO+
Figura 10 — Mensagem sinusoidal de 1 kHz (em cima, referência) e a saída de três moduladores, com portadora de 10 kHz e 1 V de pico (ilustração calculada; mesma base de tempo nos quatro gráficos). Cores, de cima para baixo: ① mensagem, preto; ③ AM, azul; ③ FM, verde; ③ PM, vermelho.

Modulação de amplitude (AM)

Para uma mensagem sinusoidal de frequência fm, em hertz, o sinal AM é:

vAM(t) = Vp [1 + m cos(2πfmt)] cos(2πfpt)
(T.3)

O termo entre parênteses rectos é a envolvente, a curva que une os picos da portadora. O índice de modulação m, sem unidades, mede-se no osciloscópio a partir do maior e do menor pico da envolvente, Vmáx e Vmín, em volts. Com os valores assinalados na Figura 10:

m = (Vmáx − Vmín) / (Vmáx + Vmín)
m = (1,5 V − 0,5 V) / (1,5 V + 0,5 V)
m = 0,5
(T.4)

Com m ≤ 1, a envolvente tem a forma da mensagem; com m > 1 há sobremodulação, a envolvente toca no zero e a mensagem recuperada sai distorcida. O Estudo 2 do KLV-A01 mostra os três casos.

Modulação de frequência (FM)

Na FM, a amplitude é constante e a frequência instantânea sobe acima de fp quando a mensagem é positiva e desce quando é negativa. O desvio de frequência máximo Δf, em hertz, é proporcional à amplitude de pico da mensagem Vm, em volts; a constante kf, em Hz/V, é a sensibilidade do modulador, no KLV-A02 a do oscilador controlado por tensão (VCO) do CD4046B. Na Figura 10, kf = 5 kHz/V:

Δf = kf Vm
Δf = 5 kHz/V × 1 V
Δf = 5 kHz
(T.5)

O índice de modulação da FM, β, sem unidades, compara o desvio com a frequência da mensagem:

β = Δf / fm
β = 5 kHz / 1 kHz
β = 5
(T.6)

Como a informação não está na amplitude, o receptor limita-a antes de desmodular e livra-se do ruído que a afecta; a FM ocupa mais banda, mas soa mais limpa do que a AM.

Modulação de fase (PM)

Na PM, a fase segue a mensagem, φ(t) = kpvm(t), com a sensibilidade kp em rad/V. Na Figura 10, kp = 5 rad/V e o desvio de fase máximo é:

Δφ = kp Vm
Δφ = 5 rad/V × 1 V
Δφ = 5 rad
(T.7)

A PM analógica usa-se pouco, mas é a base do chaveamento de fase binário (BPSK).

4. Modulações digitais: ASK, FSK e BPSK

Com uma mensagem digital, a portadora salta entre dois estados, um para o «1» e outro para o «0». O débito binário Rb, em bit/s, é o número de bits por segundo, e cada bit dura Tb, em segundos. Nos kits KLV-D01 e KLV-D02, os dados são 1011 0010, a 1 kbit/s:

Tb = 1 / Rb
Tb = 1 / (1000 bit/s)
Tb = 1 × 10⁻³ s = 1 ms
(T.8)
Figura 11 da Revista CIRCUITO+
Figura 11 — Dados 1011 0010 a 1 kbit/s (em cima, referência) e a saída de três moduladores digitais (ilustração calculada; mesma base de tempo nos quatro gráficos). ASK liga-desliga (OOK) e FSK com os valores do KLV-D01; BPSK com os valores do KLV-D02. Cores, de cima para baixo: ① dados, preto; ③ ASK, azul; ③ FSK, verde; ③ BPSK, vermelho.

Na modulação por chaveamento de amplitude (ASK), o «1» e o «0» são portadoras com amplitudes diferentes. Se a amplitude do «0» for zero, a portadora liga e desliga: é a modulação liga-desliga (OOK, On-Off Keying), caso particular do ASK, usada no KLV-D01, no modo TEXTO do Li-Fi Comunicador e nas ligações por laser e por fibra do Radar.

Na modulação por chaveamento de frequência (FSK), a amplitude é constante e cada bit tem a sua frequência. No KLV-D01, um 555 gera 12 kHz para o «1» e 8 kHz para o «0».

Na modulação por chaveamento de fase binária (BPSK), a fase é 0° para o «1» e 180° para o «0». Inverter a fase 180° é multiplicar a portadora por −1, e é assim que funciona o modulador do KLV-D02: um amplificador inversor e um interruptor analógico escolhem, em cada bit, a portadora de 5 kHz ou a sua inversa.

5. Espectro e largura de banda

A largura de banda B, em hertz, é a largura da faixa que o sinal ocupa e decide quantos canais cabem numa faixa e que filtro ⑥ o receptor precisa (Figura 12).

Bandas laterais da AM. Desenvolvida, a Equação (T.3) dá três sinusóides: a portadora, de amplitude Vp, e duas bandas laterais, a fp − fm e a fp + fm, cada uma com amplitude mVp/2. A largura de banda é a distância entre elas; para a mensagem de 1 kHz do KLV-A01:

BAM = 2 fm
BAM = 2 × 1 kHz
BAM = 2 kHz
(T.9)
Figura 12 da Revista CIRCUITO+
Figura 12 — Espectros calculados, um sinal por gráfico. (a) AM com os valores do KLV-A01: portadora e duas bandas laterais. (b) FM com portadora de 10 kHz, mensagem de 500 Hz e β = 2,4, como no Estudo 3 do KLV-A02. (c) ASK liga-desliga (OOK) do KLV-D01 e (d) BPSK do KLV-D02: lobo principal de 2 kHz; só o OOK tem a risca da portadora.

Regra de Carson para a FM. O espectro da FM tem riscas espaçadas de fm à volta da portadora, com amplitudes que dependem de β; com β = 2,4, a portadora quase desaparece. Cerca de 98 % da potência fica dentro da banda de Carson. Com fm = 500 Hz e Δf = 1,2 kHz:

BFM ≈ 2 (Δf + fm)
BFM ≈ 2 × (1,2 kHz + 0,5 kHz)
BFM ≈ 3,4 kHz
(T.10)

Lobo principal do ASK e do BPSK. Os saltos de bit espalham a potência num lobo contínuo, com nulos a fp ± Rb. A largura do lobo principal é:

B ≈ 2 / Tb
B ≈ 2 / (1 × 10⁻³ s)
B ≈ 2000 Hz = 2 kHz
(T.11)

6. Desmodular

A Figura 13 mostra os três desmoduladores dos kits, cada um com a sua numeração.

Detector de envolvente

Na Figura 13(a), o amplificador sintonizado LC ① escolhe a portadora. O díodo ② só conduz nas meias ondas positivas. No filtro RC ③, o condensador carrega-se em cada pico e descarrega-se devagar pela resistência: a sua tensão segue a envolvente. O condensador de acoplamento ④ bloqueia a componente contínua (DC). A constante de tempo τ = RC tem de ficar muito acima do período da portadora e muito abaixo do da mensagem:

1/fp ≪ τ = RC ≪ 1/fm
τ = Rd Cd = 47 kΩ × 3,9 nF ≈ 183 µs (Tp ≈ 20,2 µs ; Tm = 1000 µs)
(T.12)
Figura 13 da Revista CIRCUITO+
Figura 13 — Três desmoduladores em diagrama de blocos: (a) detector de envolvente, para AM e ASK; (b) malha de captura de fase (PLL), para FM; (c) detecção coerente, para DSB-SC e BPSK.

PLL como desmodulador de FM

Na Figura 13(b), o amplificador limitador ① transforma o sinal FM numa onda rectangular de amplitude constante. O comparador de fase ② compara-a com a saída do VCO ④. O filtro de malha ③ faz a média dos impulsos e dá a tensão de controlo do VCO. Presa a malha, a tensão de controlo reproduz a mensagem, e o filtro de saída ⑤ tira-lhe a ondulação.

Detecção coerente

Na Figura 13(c), o sinal BPSK é multiplicado no multiplicador ③ por uma portadora local ② com a mesma frequência. Se o sinal recebido for vr = Vr cos(ωt) e a portadora local vl = Vl cos(ωt + φ), o produto é:

vr vl = (Vr Vl / 2) [cos φ + cos(2ωt + φ)]
(T.13)

O filtro passa-baixo ④ elimina o termo em 2ω e deixa a média, (VrVl/2) cos φ, que muda de sinal com o bit; o comparador ⑤ decide o sinal. Com φ = 0° a saída é máxima, com 90° é nula e com 180° os bits saem trocados.

7. Ruído e relação sinal-ruído

A relação sinal-ruído (SNR) é o quociente entre a potência do sinal PS e a do ruído PR, expresso em decibéis (dB). Na Figura 14, o sinal de 1 V de pico tem VS = 1 V/√2 ≈ 0,707 V eficazes e o ruído VR = 0,100 V eficazes:

SNR = 10 log₁₀(PS / PR) = 20 log₁₀(VS / VR)
SNR = 20 log₁₀(0,707 V / 0,100 V)
SNR ≈ 17,0 dB
(T.14)

Se o ruído duplicar, para VR = 0,200 V, a SNR desce 6 dB:

SNR = 20 log₁₀(VS / VR)
SNR = 20 log₁₀(0,707 V / 0,200 V)
SNR ≈ 11,0 dB
(T.15)
Figura 14 da Revista CIRCUITO+
Figura 14 — (a) Sinal de 1 kHz e 1 V de pico à saída do emissor (referência). (b) O mesmo sinal à entrada do desmodulador ⑦, com ruído de 0,1 V eficazes.
Em resumo — Modulação
  • Modular é fazer variar a amplitude, a frequência ou a fase de uma portadora ao ritmo da mensagem, para ter antenas viáveis, partilhar o espectro e adaptar o sinal ao canal.
  • A AM ocupa 2fm; a FM ocupa mais banda, pela regra de Carson, mas resiste melhor ao ruído; o ASK e o BPSK ocupam um lobo de 2/Tb.
  • O detector de envolvente serve a AM e o ASK; o PLL, a FM; a detecção coerente, a DSB-SC e o BPSK.
  • A SNR, em dB, compara a potência do sinal com a do ruído e decide a taxa de erros de bit.
Tabela 4 — Resumo das modulações estudadas nesta edição
ModulaçãoParâmetro que variaLargura de bandaDesmoduladorOnde aparece nesta edição
AM (DSB-FC)amplitude, com portadora2fm (T.9)detector de envolventeKLV-A01; modo VOZ do Projecto de Capa
DSB-SCamplitude, sem portadora2fmdetecção coerenteKLV-A01, Estudo 4 (AD633)
FMfrequência2(Δf + fm) (T.10)PLLKLV-A02 (CD4046B)
PMfase≈ 2(Δφ + 1)fmdetecção de fasebase do BPSK
ASKamplitude, dois níveis2/Tb (T.11)detector de envolvente + comparadorKLV-D01
OOKamplitude, liga-desliga2/Tbcomparador com limiarmodo TEXTO do Projecto de Capa; Radar
FSKfrequência, dois valoresf₁ − f₀ + 2/Tbfiltros passa-banda + detectores + comparadorKLV-D01 (555)
BPSKfase, 0° ou 180°2/Tbdetecção coerente + comparadorKLV-D02 (AD633)